menos fotos, por favor!

Já faz um tempo que comecei a me incomodar com a atitude de pessoas que passam o tempo todo fotografando: penso se isto é mesmo necessário... será que em algum momento param para rever essas fotos ou estão se tornando acumuladores digitais?...   infelizmente, aos poucos vi também essa febre chegar nas igrejas... há pessoas que não cultuam - passam o tempo inteiro fotografando e filmando...  
Pode parecer inofensivo, mas a compulsão pelo ato de fazer fotos nos torna alienados ao que está acontecendo. Penso que mais importante do que fotografar um culto é vivê-lo.

Um estudo publicado pela doutora em Psicologia, Linda Henkel, relata que "a mente humana em geral não está preparada para as duas tarefas simultaneamente. Cuidar dos aspectos relacionados à fotografia como o foco, enquadramento, decidir por um fundo desfocado, superexpor o fundo e etc e ainda absorver as demais informações inerentes ao meio a ser fotografado é demais para o tico e o teco. Isso posto fica claro que devemos mais uma vez fazer uma escolha. Registrar o momento ou vivê-lo".

Além do fato de nos conscientizarmos sobre nosso real propósito de estar num culto, merece destacar a falta de ética de alguns quando se tem uma apresentação à frente do púlpito. Ocorre que os paparazzi de plantão não permitem que ninguém mais aprecie o trabalho, tomam a frente da apresentação,  esquecem-se que não é só ele quem quer ver, os que estão atrás vieram fazer o mesmo.

Em concordância com a ideia da exaltação à imagem,  Guy Debord,  escritor francês, vem nos trazer o conceito da sociedade do espetáculo. Ele defende que vivemos num mundo onde tudo é mostrado, fotografado , exposto, acabando assim com o segredo e a intimidade. Hoje não há pudor, decoro, não há separação entre o público e o privado; tudo pode ser mostrado a qualquer momento, num narcisismo exagerado. Nossas páginas de redes sociais estão abarrotadas de publicações que não interessam pra nada, somente pra alimentar  o vazio de uma sociedade que só pensa em dormir. 

É todo mundo falando de qualquer coisa, numa linguagem pobre de experiência,vejo uma proliferação incontrolável de postagens, que provocam uma saturação que impedem o meu pensamento.A fotografia, que antes era um meio de recordação de um momento especial e único, tornou-se um caminho da contemplação de algo transcendente, da negação do real, de apenas uma representação.  Muitas reuniões e cultos postados como "maravilhosos", não foram tão "maravilhosos" assim... mas, por meio das fotos, a sensação que se tem é que a realidade é outra, não existe, pois ela surge do espetáculo e o espetáculo é que é real.

Pessoas em momento adoração passaram a ser também imagem desse espetáculo de cultos, mesmo que não tenha autorizado o registro de seu momento íntimo com Deus, mas que agora tornaram-se públicas. A  imagem veio a ser a expressão lídima da verdade, em detrimento das coisas reais, infelizmente, valorizamos mais o ter do que o ser, e o ter implica em aparecer nas fotos, nas mídias sociais.

Queila Leite

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

É correto cantar com os olhos fechados?

O aluno invisível

Eu x couching