Memórias de infância e como me tornei professora
PARTE I - MEMÓRIAS DE ESCOLA
ANTES DA IDA PARA A ESCOLA
Nasci em Guarulhos. Fui a
segunda dos quatro filhos que meus pais tiveram. Minha mãe casou-se aos
dezessete anos e logo nos primeiros meses de casada, engravidou. Passou quatro
anos de sua vida gestante. Nascemos um após o outro com apenas um ano de
diferença entre nós. Não foi fácil para ela “criar” (era esse o termo usado na
época) quatro crianças de uma só vez. Era jovem, tinha apenas a 8ª série, era inexperiente
e não tinha ideia do que era educar filhos, aprendeu com a vida que a relação com os filhos tinha que ser apenas de
cuidados com a alimentação e com a higiene do corpo. Lembro-me do seu esforço
para reunir os quatro filhos em volta da mesa para almoçar. Acabava que sempre
algum lhe escapava, o que a deixava extremamente nervosa. Era-lhe trabalhoso dar
conta dos afazeres da casa, dos filhos e da janta que deveria estar à mesa à
hora que papai chegasse em
casa. Cursou o magistério quando eu já era adolescente, mas
nunca exerceu a profissão.
Meus pais, imigrantes nordestinos,
passaram por muitos momentos difíceis em São Paulo. Lembro-me
das muitas casas de aluguel onde moramos, das roupas simples que vestimos,
muitas vezes confeccionadas por minha mãe, da alimentação sempre básica –
arroz, feijão e a “mistura”. Não raras vezes, alguns amigos vinham nos trazer
uma cesta básica.
Meu pai, depois de vários empregos
temporários, tornou-se balconista de farmácia e com o tempo, assumiu o cargo de
gerência. Aquele foi o período em que
nossa situação financeira melhorou. Lembro-me dos inúmeros brinquedos que
passou a nos dar como forma de compensar sua ausência, pois saía cedo de casa para
trabalhar e voltava muito tarde. O único contato que tinha conosco era no
ajuste de nossos cobertores enquanto dormíamos.
Talvez seja por esse fato que as
lembranças que tenho dele na infância sejam muito vagas, contudo, lembro-me de que
ele estava sempre a estudar; para onde quer que fosse, iria com um livro nas
mãos. Acumulou dezenas de cursos técnicos – datilografia, liderança, oratória,
computação entre outros. Nessa mesma época, devido à sua vocação para pastor
evangélico, formou-se em Filosofia e Teologia. Dez anos depois, cursou
Pedagogia e Docência do Ensino Superior. Hoje, além de pastor, fundador da Faculdade
Teológica Ibetel, é escritor de livros e conferencista. Possui uma biblioteca
particular e estuda pelo menos cinco horas por dia.
Na verdade, é mais um personagem das
histórias de imigrantes nordestinos que vieram “tentar a vida na cidade grande”
e por fim, venceu com muito esforço e força de vontade. É também um exemplo de
vida para mim, meu espelho.
Antes de eu aprender a ler, brincava
muito na rua. Formávamos um grupo grande de crianças da vizinhança.
Euforicamente, brincávamos das mais diversas brincadeiras dentre elas “cada
macaco no seu galho”, “mãe da rua”, “pula corda”, “amarelinha”, “lencinho
branco”, “passa anel”, “enconde-esconde”, “pega-pega”, entre outras.
Dentro de casa, brincava mais com
minha irmã e minha prima, pois as brincadeiras dos meus irmãos eram sempre
chatas - “coisas de meninos”. Nós duas fazíamos “shows” imitando a Xuxa e
Angélica, brincávamos de casinha, escritório e também de escolinha. Eu sempre
era a professora e elas, as alunas. Passava-lhes as lições da cartilha,
conforme eu ia aprendendo na escola. Em tudo eu imitava minhas professoras, até
no modo de corrigir a lição e “liberá-las” para o recreio.
Tive uma boa infância, embora
fortemente marcada por valores machistas, brinquei muito, fui uma criança
saudável e feliz.
NA ESCOLA
Minhas lembranças sobre a entrada na escola são muito vagas. Apenas lembro-me de que estudei numa escola de Educação Infantil chamada “Pardalzinho” em Teresina / PI. Participei do baile de formatura. Foi uma experiência horrível. Minha mãe costurou um lindo vestido para mim, eu estava linda, mas o fato de ter que dançar com um garoto da turma me consumia, pois meu pai era extremamente conservador. Dancei tensamente uma única música, sem esboçar qualquer sentimento. O olhar do meu pai sobre mim me intimidava e eu desejava que aquela dança acabasse o mais rápido possível.
De
volta para São Paulo, estudei em escola pública no bairro do Itaim Paulista. Foi maravilhoso o período que passei
ali. Eu amava ir para a escola e chorava muito quando minha mãe esquecia de me
acordar. Minhas aulas preferidas eram as aulas de leitura, onde saímos de nossa
sala para irmos à biblioteca. Lá podíamos escolher o livro que quiséssemos e
passávamos horas compenetrados na leitura. Foi o período em que mais li na
minha vida. Li cerca de quarenta livros da biblioteca, além daqueles que meu
pai me presenteava.
O
ensino era tradicional. Passávamos muito tempo silenciosamente copiando textos
da lousa. Os meus dedos ficavam calejados e doloridos. A professora Nogaly –
nunca a esquecerei – era rude, de semblante fechado, passava a aula inteira
amedrontando os alunos com suas exigências e reclamações. Certa vez fez um
comentário na frente de toda a classe: “Olhem só como a Queila está sentada, de
pernas para o ar, onde ela pensa que está?”. Eu estava sentada de lado, com as
pernas cruzadas. Diante daquele comentário, abaixei a cabeça, descruzei as
pernas e virei-me para frente. Daquele dia em diante, passei a ter raiva
daquela professora; eu não merecia passar por aquele vexame. Sonhava em ser
como Alexandrina, uma aluna que era elogiada em tudo, a única pessoa que a
professora enxergava na sala de aula. Tamanha foi sua decepção quando
Alexandrina mudou de escola por também não suportá-la mais.
A
passagem para a 5ª série foi uma grande novidade. Era uma alívio não estar mais
refém dos ataques de histerismo da professora Nogaly. Dali em diante, eu
conheceria novos professores, faria novos amigos... Estava muito feliz, pois
afinal, eu estava crescendo.
Na
escola, esforçava-me ao máximo para tirar as melhores notas e depois mostrá-las
ao meu pai. Ele, muito orgulhoso de mim, me presenteava livros de história
infantis e literatura brasileira, e eu passava horas trancada em meu quarto
“penetrando surdamente no reino das palavras” (Drumond de Andrade,1967 ).
Meus parentes e colegas de infância
me viam com estranheza; não entendiam como uma garota tão nova poderia ficar
tantas horas do dia estudando sem parar. Para mim era tudo maravilhoso, quanto
mais eu estudava mais vontade tinha de continuar. Minhas leituras eram verdadeiras
viagens no mundo da fantasia, eu me sentia livre, flutuando no ar, vivendo no
mundo da imaginação; os livros foram, naquela época, os meus melhores amigos.
De
todas as disciplinas da 5ª série, a melhor era a de Língua Estrangeira. A
professora Regina era muito simpática e ensinava o Inglês utilizando pequenas
canções. Acredito que foi ali que nasceu minha paixão pela língua inglesa. As
outras disciplinas eram ensinadas da mesma maneira. Havia muita cópia de textos
da lousa, ditado, memorização (...), nada tão atrativo que minha memória possa
recobrar.
Da 5ª à
8ª série tive dois ou três amigos; para os outros 160 alunos com os quais
convivi em quatro anos, eu era apenas colega de classe. O clima competitivo
instalado na sala de aula só nos permitia olhar para o outro como alguém que
está para tomar o nosso espaço no ranking dos melhores leitores orais ou das
melhores notas da sala. Os alunos eram individualistas e egoístas, guardavam o
que sabiam só para si e não se
importavam em ajudar um ao outro. Nessa escola o que mais me marcou foram as
relações que estabeleci com os conteúdos escolares, que eram encantadores, e o
que menos ficou em minha memória, foram as relações interpessoais.
Na
verdade, sofri muita discriminação pelos colegas de classe pelo fato de ser
evangélica, de usar roupas muito simples e sempre vestir saias. Nos recreios e
aulas de educação física estava sempre sozinha, eu parecia invisível para o
restante do grupo, inclusive para alguns professores.
Ir para
o ensino médio foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Mudei para uma
escola grande no centro de São Miguel Paulista, EEPSG Carlos Gomes. Teria que
ir de ônibus, usar uniforme escolar, ganhei um caderno grande de 20 matérias...
Eu estava ficando moça, independente... Ansiosa pelo primeiro dia de aula. E
foi mágico.
A
escola era enorme, havia muitos adolescentes, de todos os tipos possíveis, os
professores eram todos simpáticos, ensinavam de forma tradicional, mas
procuravam estabelecer um clima amistoso em sala de aula. Foi aí que tirei o
véu da timidez e da invisibilidade. De repente, fiquei notória numa sala de
quarenta alunos. Destacava-me pela participação em sala de aula, pelas notas e
pelas relações que estabelecia com os colegas. Conversava com todos e ajudava
os que tinham dificuldades. Não demorou muito e fui eleita a representante de
classe durante os três anos de estudo.
Foi o
melhor período da minha vida. Troquei o estudo intenso das disciplinas pelas
amizades e algumas paixões de adolescente. Nunca deixei de ser estudiosa, mas
aquele era o meu momento de superação de muitos traumas de discriminação e
exclusão social. Tenho o prazer de ter guardado na memória lembranças de vários
amigos que constituí naquele período: Deise, Denise, Regina, Manoel, Tiago,
Wellington, Marcos, Anselmo...entre tantos outros.
Sendo assim, não foram os
professores que marcaram minha vida no Ensino Médio, mas sim os conflitos e
amizades que vivenciei. Os amigos representam patrimônio incalculável. Embora
imperfeitos, eles sinalizam nossas possibilidades, nos dizem verdades, são
companheiros nas adversidades e sucessos. A escola deveria atentar-se para o
fato de não ser apenas um espaço de transmissão de saberes, mas também um local
onde estabelecemos relações interpessoais, pois o processo de aprendizagem está
atrelado a essas relações.
Minha irmã Elisabete e eu no ensino médio (1999)
NA FACULDADE
Concluí o ensino médio e iniciei no ano seguinte o Curso de Ciências da Computação pela Universidade Cruzeiro do Sul. Estudar computação era o “boom” daquela época, era a esperança de me profissionalizar numa área em que o mercado de trabalho estava carente.
Foi um curso difícil. Meus
conhecimentos de informática eram rasos e muitas vezes eu não tinha ideia dos
que os professores estavam falando. Foram dois anos custeados por meu pai naquela
Universidade. As mensalidades eram muito altas e todo esforço empregado por ele
para manter-me ali foi em
vão. Por mais que eu me esforçasse, que tirasse boas notas,
não conseguia me identificar com aqueles conteúdos extremamente teóricos e
abstratos de mais para mim. Por fim, decidi abandonar o curso.
PARTE II - A ESCOLHA DO CURSO DE PEDAGOGIA
EU, QUANDO COMECEI O CURSO.
Certa
vez, uma professora do curso de Ciência da Computação perguntou-me se estava
satisfeita com o curso. Naquela conversa de pequenos minutos, ela entendeu que
eu havia feito a escolha errada, e disse que o meu perfil se enquadrava em
cursos como Letras ou Pedagogia. Naquele momento ignorei seu comentário, pois
trago comigo um compromisso de ir a cabo qualquer coisa que eu me comprometa a
fazer. Mas, naquele caso, não valeu a pena continuar.
Depois
de ter desistido daquele curso, fiquei dois anos me dedicando apenas ao curso
de Inglês. Enquanto isso, acompanhava de perto a formação de meu pai no curso
de Pedagogia. Procurava ouvir as discussões que ele tinha em casa com os
colegas de sua classe sobre os temas das aulas. Cheguei, algumas vezes, a fazer
seus trabalhos de pesquisas. Aqueles
assuntos foram despertando em mim grande interesse pela área da educação, foi
então que em 2004 iniciei o curso de Pedagogia na Universidade Braz Cubas.
Os primeiros semestres
foram muito bons. Nós dois íamos juntos de carro, conversando sobre as
disciplinas do curso. Ele me orientava e me ensinava muito durante o percurso.
Dava-me dicas de como me relacionar com determinados professores, comprava
todos os livros que me indicavam, comprava-me lanche todos os dias e ainda afastava
alguns rapazes que cruzavam o meu caminho (risos).
Mesmo já tendo passado
anteriormente por um curso universitário, ali, tudo era novo para mim. Saí de
um curso em que 95% dos alunos eram homens, para outro em que 95% eram
mulheres. A primeira semana de aulas foi desgastante. Eram quase sessenta
mulheres que, uma a uma, relataram seus relacionamentos com os filhos ou netos e
o porquê da escolha do curso. Eu não aguentava mais. O que mais se ouvia era
“escolhi Pedagogia porque gosto de crianças”. Aquela fala já havia se tornado
um jargão, e eu me sentia estranha, pois havia escolhido o curso por outro
motivo...
PARTE
III – MEU CURSO DE PEDAGOGIA
EXPECTATIVAS NO MOMENTO DE INÍCIO DO CURSO.
Quando decidi estudar
Pedagogia, não pensava em lidar especificamente com crianças. Eu queria apenas
tornar-me professora, ter o prazer de ver meus alunos aprenderem, fossem
eles crianças ou adultos.
Logo no início do curso,
na disciplina de Introdução à Pedagogia, na Universidade Brás Cubas, estudamos trechos
da obra “Pedagogia e Pedagogos, para quê?” de José Carlos Libâneo (2005), em
que o autor aborda as áreas em que o
pedagogo pode atuar. Antes daquele estudo, acreditava eu que o pedagogo pudesse
atuar somente no espaço escolar, mas aprendi que ele possui um amplo leque de
áreas em que pode inferir, estejam elas relacionadas a problemas da educação
formal ou informal.
Para Libâneo (2005), as
práticas educativas não se restringem à escola ou à família. Elas ocorrem em
todos os contextos e âmbitos da existência individual e social humana, de modo
institucionalizado ou não, sob várias modalidades. Entre essas práticas, há as
que acontecem de forma difusa e dispersa, configurando a educação informal. Há,
também, as práticas educativas realizadas em instituições não convencionais de
educação, mas com certo nível de intencionalidade e sistematização, tais como
as que se verificam nas organizações profissionais, nos meios de comunicação,
nas agências formativas para grupos sociais específicos, caracterizando a
educação não formal. Existem, ainda, as práticas educativas com elevados graus
de intencionalidade, sistematização e institucionalização, como as que se
realizam nas escolas ou em outras instituições de ensino, compreendendo o que o
autor denomina educação formal.
Os estágios nos diferentes níveis de ensino (Educação Infantil,
Ensino Fundamental, Educação de Jovens e Adultos e Educação Especial) constituíram-se
em momentos de grande aprendizagem e aprimoramento da minha consciência crítica
acerca das questões que envolvem a educação.
Esta rica formação, faz-me
sentir segura e convicta das minhas ações docentes. As experiências são sempre desafiadoras e muito gratificantes.
Conclui o curso de Pedagogia em 2010, tendo estudado o total de oito semestres presenciais e logo em seguida passei num concurso para professores da cidade de Suzano. Atuei por 1 ano na Educação Básica e após isso pedi exoneração para ter mais tempo para o trabalho com a música e as palestras que eu tinha que realizar.
Conclui o curso de Pedagogia em 2010, tendo estudado o total de oito semestres presenciais e logo em seguida passei num concurso para professores da cidade de Suzano. Atuei por 1 ano na Educação Básica e após isso pedi exoneração para ter mais tempo para o trabalho com a música e as palestras que eu tinha que realizar.
Trabalho, desde os 15 anos,
na Faculdade de Teologia Ibetel em Suzano, tendo exercido desde a função de recepcionista, e atualmente atuo como diretora geral.
Dar aula na Ibetel tem
sido uma experiência ímpar. Além de estar constantemente retomando os conteúdos
estudados nos primeiros períodos do curso de Pedagogia, tenho colocado em prática ações de planejamento de aula e escolha de
instrumentos de didática.
Se eu pudesse ainda
escalonar todos os meus ganhos, colocaria em primeiro lugar, a inestimável relação
que tenho estabelecido com meus alunos. Quando nos encontramos o "clima"
das aulas, os fatos alegres ou tristes que nelas se sucedem, o assunto das
conversas informais, as ideias expressas pelo grupo, enfim, os momentos vividos
juntos e os valores veiculados nesse convívio, de forma implícita ou explícita,
marcam minha trajetória como professora, minha vida, minha personalidade e são
o norte para meu desenvolvimento posterior.
Para mim, a entrada na
universidade não significou apenas o início da realização do sonho de seguir a
carreira desejada. A vida acadêmica durante as universidades pelas quais passei,
representou, além de uma nova etapa profissional e novas amizades, uma mudança
na minha personalidade. Eu cresci, amadureci, criei minha própria identidade.
Graças ao bom Deus, tenho construído uma carreira sólida na área de gestão empresarial, docência (educação cristã) e formação de professores.
Para mim, é um grande prazer SER PROFESSORA!
Feliz dia do Professor!
Graças ao bom Deus, tenho construído uma carreira sólida na área de gestão empresarial, docência (educação cristã) e formação de professores.
Para mim, é um grande prazer SER PROFESSORA!
Feliz dia do Professor!



Que linda meu amor, meu sentimento pra ti é sempiterno! <3
ResponderExcluirQue privilégio eu tive de tê-la como aluna...sempre comprometida.Inteligente e com postura...sucesso sempre!
ResponderExcluirQue privilégio eu tive de tê-la como aluna...sempre comprometida.Inteligente e com postura...sucesso sempre!
ExcluirCliquei no meu perfil...mas não foi ...ass: Tchr Rita
ExcluirAh teacher Rita! Obrigada!! Minha história contigo é um capítulo à parte que ainda devo escrever. Obrigada por estar sempre por perto! Love you forever
ExcluirGostei... As coisas realmente mudaram bastante em sua vida, se eu não tivesse lido talvez nunca imaginaria. Parabéns Prof 😚
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